terça-feira, 3 de março de 2015

"Eu sou aquele cheiro doce lá da mata
Água limpa da cascata, o verde dos cafezais
Modéstia parte sou o som daquela viola
Que um caboclo consola quando o acorde se faz

[...]

Eu sou aquilo que inda chamam de beleza
Sou um fato, sou certeza, tudo isso e muito mais
Nasci da terra, sou a flor da natureza
Eu sou vida, sou pureza, amor que não se desfaz"




domingo, 1 de fevereiro de 2015

"Eu queria ter na vida simplesmente
Um lugar de mato verde
Pra plantar e pra colher

Ter uma casinha branca de varanda
Um quintal e uma janela
Para ver o sol nascer"


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

“— Olha, lá vem ele! — gritei de repente, quando o vi ao longe.
Natacha estremeceu, deu um grito e, largando a minha mão, correu ao seu encontro. Ele acelerou também o passo e um momento depois já estavam nos braços um do outro. Na rua, além de nós, não havia quase ninguém. Eles beijavam-se e riam. Natacha ria e chorava ao mesmo tempo, como se se vissem depois de uma longa separação.” (p. 37)

E assim Dostoiévski em “Humilhados e ofendidos” narra a angústia de Vânia, o escritor apaixonado por Natacha, jovem pobre deslumbrada pelas promessas de casamento do nobre Aliocha, este que também se divide com o amor da privilegiada social Kátia. Em contraste, a jovem pobre Nelly, orfã que se sente amparada pela compaixão de Vânia.

Como todo romance de Doistoiévski, há uma evidência sacral de sua concepção “psicologizante” das contradições do ser humano. Devemos sofrer, para nos tornarmos seres amorosos, solidários, com a tão reivindicada compaixão. A permanência de considerações confusas de Natacha que se submete as humilhações do nobre Aliocha demonstra que o apreço pelo poder e a manipulação do romance são caracterizações “naturalizadas” por uma sociedade de classes, onde a permuta de interesses são procedimentos rotineiros nos pesados séculos da humanidade.

Relacionamentos compactados por velhas “novidades” e dispostos na lógica da infelicidade, onde a sensatez se dilui com a irracionalidade. No romance existe o “duplo amor coincidente”, o “gostar de duas pessoas ao mesmo tempo”, fenômeno que afeta dois personagens, ambos em situação favorável na dinâmica das relações que se comprometem e que confortavelmente permanecem a esse modelo cientes de que se encontram privilegiados, portanto, tendo como base a descomprometida crueldade humana, aptos a conservar essa situação.

A gravura ao lado, de um artista que tenho profunda admiração, Oswaldo Goeldi (1895-1961), retrata o exato momento que Natacha larga a mão de Vânia e se joga nos braços de Aliocha. O ecletismo do seu “choro” e “riso” demonstra a obviedade daquela contradição do sentimento que carregava, a dor de “ser a outra” e o “sorriso confortável” antiético de também “ter outro”. 

Psicologicamente

Da lua em prantos,
Coberta de sangue
Meu coração a eclipsava

Daquilo que se debruçara em outrora
Em desrespeito ao meu cântico triste
Que me rompia a consciência

Na convergência infeliz de notícias tristes
Espetava-me os sentidos
Em exigência a algo inexistente

Nos eternos soluços, procurava a solução
Da lua em prantos, veio o sol debochado
Sua gargalhada incomodava, ofendia

Xinguei-o, blasfemei
Isso o fortalecia e me fortalecia
De forças, deixei correntes


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Estâmina

Do bloco frio e gélido
Com programas em disputa
Gritos, política, vaidade, ira

Sentimentos compelidos
Se digeriram em variáveis múltiplas
Planilhas mecânicas foram adoçadas

A pequena em sua dosagem
Agigantou o meu futuro
Leves dedos, leves palavras

Das velhas disputas estudantis
Em eleições intermináveis

Foi a única vitória

terça-feira, 8 de julho de 2014

A superação do “Tiki-Taka” e a “nova” tática ofensiva: quando futebol e política deliciosamente se misturam



A Copa do Mundo de 2014 sediada no Brasil se destacou pelas inúmeras denúncias de corrupção da FIFA, obras superfaturadas com o dinheiro público, construções de “elefantes brancos”, desalojamento de famílias, aumento da repressão policial, além das manifestações efusivas da classe trabalhadora indignada, não só com tais prerrogativas, mas, também, com os ataques às seus direitos, o que ficou evidenciado nas inúmeras paralisações da classe operária Brasil afora.
Pareado a isso, as seleções deram um verdadeiro espetáculo de futebol, caracterizando o evento, segundo os amantes do futebol, como um dos melhores dos últimos sete mundiais (86, 90, 94, 98, 2002 e 2010). Há, porém, uma velha prerrogativa da esquerda “vulgar” que rotula o futebol como “o ópio do povo”. Afirmação que lateraliza a complexidade desse esporte e as contradições que o permeiam, tanto em seu sentido antropológico (a figura do árbitro como a representação da ordem, portanto constantemente hostilizado, o grito dos torcedores, etc.), histórico (a apropriação pela classe trabalhadora por esse esporte criado pela a burguesia), cultural (a disposição das torcidas em dada região pautado pelo corte classista), lingüística (o uso de expressões do jogo pela classe trabalhadora), dentre outros.
Há inúmeros exemplos da forma política e contestatória que o futebol assume desde a sua fundação enquanto esporte moderno, onde em sua trajetória há confrontos com a ordem. Recentemente, o conservadorismo norte-americano, inconformado com o crescimento do esporte na terra dos yankees, explicitou em suas declarações a leitura preconceituosa e elitista em relação ao futebol, ao alegar que o esporte era “coletivo demais” e “que só atraía a classe mais baixa da sociedade”, ou seja, os imigrantes latinos.
O debate político e o contexto econômico-social afeta, inclusive, o ambiente tático das equipes. Todos se recusam a lembrar do Mundial de 90, ocorrido na Itália, caracterizado como um dos piores da história, não só pelo baixo nível técnico, mas também por uma maior preocupação com a defesa do que com o ataque. Naquele período, a decadência dos regimes estalinistas do Leste Europeu e da URSS fornecia a comemorada expressão “fim da historia” junto a burguesia mundial, ou seja, o avanço do capitalismo através dos planos neoliberais que se desdobrariam numa ofensiva de cortes para a classe trabalhadora. Enquanto isso, no Mundial, a seleção brasileira, em sua pior campanha desde 1966, era o retrato do país, pós-vitória de Collor. Com um esquema tático (3-5-2) criticado por analistas esportivos, por tentar imitar as risíveis seleções “de fora”, a equipe de Sebastião Lazaroni fazia coro aos planos econômicos adotados do país, abertura ao capital estrangeiro e início de um duro processo de privatização das estatais brasileiras. Em campo, o futebol das equipes representava taticamente esse novo contexto mundial, a classe trabalhadora devia se defender diante das ofensivas do capital. No grupo B, a URSS jogava a sua última Copa, sendo eliminada ainda na primeira fase.
A crise econômica brasileira
Diferentemente do Mundial de 90 e do contexto de derrotas para a classe trabalhadora naquele período, a Copa do Mundo de 2014, tem se destacado pela enorme quantidade de gols e pela ofensividade das equipes . Tudo isso conjugado com o ressurgimento das lutas recentes no mundo (a empolgante “Primavera Árabe”, lutas na Grécia, Espanha, Portugal, EUA, África do Sul, “Jornadas de Junho”, etc). Ações em resposta de uma classe trabalhadora indignada e saturada das promessas vazias do sistema capitalista. Adicionado a isso, o evento aflorou debates geopolíticos, além das contradições das instituições FIFA-CBF, amputadas em sua busca inútil em omitir suas negociatas. As evidências de corrupção junto a ingressos para os jogos (em sua maioria, restritos a elite classe-média-branca-alta), os “esquemões” para favorecer patrocinadores, além das ameaças de greve dos jogadores das seleções africanas diante das corrupções de suas federações locais. Por outro lado, tivemos a belíssima participação dos países ex-colônias, agora periféricos no sistema capitalista (a América Latina classificou 7 países para a segunda fase e a África 2).
Em relação a última Copa (2010 na África do Sul), o futebol entediante e sem objetivo praticado pela Espanha, conhecido popularmente como “Tiki-Taka”, tinha como principal finalidade desgastar psicologicamente o adversário, cometendo passes curtos e pouco abusando da ofensividade. O resultado foi uma Espanha campeã com placares modestos, ultrapassando apenas poucas vezes os dois gols. Naquele ano, a crise na Espanha se intensificaria e levaria a grandes manifestações no segundo semestre e com mais rigor em 2011, ressaltando um descompasso da classe trabalhadora espanhola com o entediante “Tiki-Taka” praticado pela seleção do seu país e o ainda “todo-poderoso”, Barcelona (em seu último título da Liga dos Campeões da UEFA, principal torneio continental de times da Europa), que, a exemplo da sua seleção, viria entrar em crise nos anos posteriores a 2012.
O futebol jogado na Copa do Mundo no Brasil (2014) demonstrou que ofensividade com objetividade em nada retiram a beleza e a dinâmica do esporte tão amado pela classe trabalhadora. Em compasso com as mobilizações mundo afora, as seleções demonstraram que a coletividade e a atuação em bloco dão resultados favoráveis, a exemplo dos trabalhadores. Para o futebol e para os operários, não é tempo de “Tiki-Taka”, mas sim de atacar e avançar em suas tarefas!

terça-feira, 8 de abril de 2014

Dona Flor e seus dois maridos (a volta de Vadinho)



A belíssima cena da minissérie "Dona Flor e seus dois maridos" (1997). Atuação impecável de Edson Celulari e Giulia Gam.