“— Olha, lá vem ele! — gritei de repente, quando o vi ao longe.Natacha estremeceu, deu um grito e, largando a minha mão, correu ao seu encontro. Ele acelerou também o passo e um momento depois já estavam nos braços um do outro. Na rua, além de nós, não havia quase ninguém. Eles beijavam-se e riam. Natacha ria e chorava ao mesmo tempo, como se se vissem depois de uma longa separação.” (p. 37)E assim Dostoiévski em “Humilhados e ofendidos” narra a angústia de Vânia, o escritor apaixonado por Natacha, jovem pobre deslumbrada pelas promessas de casamento do nobre Aliocha, este que também se divide com o amor da privilegiada social Kátia. Em contraste, a jovem pobre Nelly, orfã que se sente amparada pela compaixão de Vânia.Como todo romance de Doistoiévski, há uma evidência sacral de sua concepção “psicologizante” das contradições do ser humano. Devemos sofrer, para nos tornarmos seres amorosos, solidários, com a tão reivindicada compaixão. A permanência de considerações confusas de Natacha que se submete as humilhações do nobre Aliocha demonstra que o apreço pelo poder e a manipulação do romance são caracterizações “naturalizadas” por uma sociedade de classes, onde a permuta de interesses são procedimentos rotineiros nos pesados séculos da humanidade.
Relacionamentos compactados por velhas “novidades” e dispostos na lógica da infelicidade, onde a sensatez se dilui com a irracionalidade. No romance existe o “duplo amor coincidente”, o “gostar de duas pessoas ao mesmo tempo”, fenômeno que afeta dois personagens, ambos em situação favorável na dinâmica das relações que se comprometem e que confortavelmente permanecem a esse modelo cientes de que se encontram privilegiados, portanto, tendo como base a descomprometida crueldade humana, aptos a conservar essa situação.A gravura ao lado, de um artista que tenho profunda admiração, Oswaldo Goeldi (1895-1961), retrata o exato momento que Natacha larga a mão de Vânia e se joga nos braços de Aliocha. O ecletismo do seu “choro” e “riso” demonstra a obviedade daquela contradição do sentimento que carregava, a dor de “ser a outra” e o “sorriso confortável” antiético de também “ter outro”.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
Psicologicamente
Da lua em prantos,
Coberta de sangue
Meu coração a eclipsava
Daquilo que se debruçara em outrora
Em desrespeito ao meu cântico triste
Que me rompia a consciência
Na convergência infeliz de notícias tristes
Espetava-me os sentidos
Em exigência a algo inexistente
Nos eternos soluços, procurava a solução
Da lua em prantos, veio o sol debochado
Sua gargalhada incomodava, ofendia
Xinguei-o, blasfemei
Isso o fortalecia e me fortalecia
De forças, deixei correntes
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Estâmina
Do bloco frio e gélido
Com programas em disputa
Gritos, política, vaidade, ira
Sentimentos compelidos
Se digeriram em variáveis múltiplas
Planilhas mecânicas foram adoçadas
A pequena em sua dosagem
Agigantou o meu futuro
Leves dedos, leves palavras
Das velhas disputas estudantis
Em eleições intermináveis
Foi a única vitória
terça-feira, 8 de julho de 2014
A superação do “Tiki-Taka” e a “nova” tática ofensiva: quando futebol e política deliciosamente se misturam
A
Copa do Mundo de 2014 sediada no Brasil se destacou pelas inúmeras denúncias de
corrupção da FIFA, obras superfaturadas com o dinheiro público, construções de
“elefantes brancos”, desalojamento de famílias, aumento da repressão policial, além
das manifestações efusivas da classe trabalhadora indignada, não só com tais
prerrogativas, mas, também, com os ataques às seus direitos, o que ficou
evidenciado nas inúmeras paralisações da classe operária Brasil afora.
Pareado
a isso, as seleções deram um verdadeiro espetáculo de futebol, caracterizando o
evento, segundo os amantes do futebol, como um dos melhores dos últimos sete
mundiais (86, 90, 94, 98, 2002 e 2010). Há, porém, uma velha prerrogativa da
esquerda “vulgar” que rotula o futebol como “o ópio do povo”. Afirmação que
lateraliza a complexidade desse esporte e as contradições que o permeiam, tanto
em seu sentido antropológico (a figura do árbitro como a representação da
ordem, portanto constantemente hostilizado, o grito dos torcedores, etc.),
histórico (a apropriação pela classe trabalhadora por esse esporte criado pela
a burguesia), cultural (a disposição das torcidas em dada região pautado pelo
corte classista), lingüística (o uso de expressões do jogo pela classe
trabalhadora), dentre outros.
Há
inúmeros exemplos da forma política e contestatória que o futebol assume desde
a sua fundação enquanto esporte moderno, onde em sua trajetória há confrontos
com a ordem. Recentemente, o conservadorismo norte-americano, inconformado com
o crescimento do esporte na terra dos yankees, explicitou em suas declarações a
leitura preconceituosa e elitista em relação ao futebol, ao alegar que o
esporte era “coletivo demais” e “que só atraía a classe mais baixa da
sociedade”, ou seja, os imigrantes latinos.
O
debate político e o contexto econômico-social afeta, inclusive, o ambiente
tático das equipes. Todos se recusam a lembrar do Mundial de 90, ocorrido na
Itália, caracterizado como um dos piores da história, não só pelo baixo nível
técnico, mas também por uma maior preocupação com a defesa do que com o ataque.
Naquele período, a decadência dos regimes estalinistas do Leste Europeu e da
URSS fornecia a comemorada expressão “fim da historia” junto a burguesia
mundial, ou seja, o avanço do capitalismo através dos planos neoliberais que se
desdobrariam numa ofensiva de cortes para a classe trabalhadora. Enquanto isso,
no Mundial, a seleção brasileira, em sua pior campanha desde 1966, era o
retrato do país, pós-vitória de Collor. Com um esquema tático (3-5-2) criticado
por analistas esportivos, por tentar imitar as risíveis seleções “de fora”, a
equipe de Sebastião Lazaroni fazia coro aos planos econômicos adotados do país,
abertura ao capital estrangeiro e início de um duro processo de privatização
das estatais brasileiras. Em campo, o futebol das equipes representava
taticamente esse novo contexto mundial, a classe trabalhadora devia se defender
diante das ofensivas do capital. No grupo B, a URSS jogava a sua última Copa,
sendo eliminada ainda na primeira fase.
![]() |
| A crise econômica brasileira |
Em
relação a última Copa (2010 na África do Sul), o futebol entediante e sem
objetivo praticado pela Espanha, conhecido popularmente como “Tiki-Taka”, tinha
como principal finalidade desgastar psicologicamente o adversário, cometendo
passes curtos e pouco abusando da ofensividade. O resultado foi uma Espanha
campeã com placares modestos, ultrapassando apenas poucas vezes os dois gols.
Naquele ano, a crise na Espanha se intensificaria e levaria a grandes
manifestações no segundo semestre e com mais rigor em 2011, ressaltando um
descompasso da classe trabalhadora espanhola com o entediante “Tiki-Taka”
praticado pela seleção do seu país e o ainda “todo-poderoso”, Barcelona (em seu
último título da Liga dos Campeões da UEFA, principal torneio continental de
times da Europa), que, a exemplo da sua seleção, viria entrar em crise nos anos
posteriores a 2012.
O
futebol jogado na Copa do Mundo no Brasil (2014) demonstrou que ofensividade
com objetividade em nada retiram a beleza e a dinâmica do esporte tão amado
pela classe trabalhadora. Em compasso com as mobilizações mundo afora, as
seleções demonstraram que a coletividade e a atuação em bloco dão resultados
favoráveis, a exemplo dos trabalhadores. Para o futebol e para os operários,
não é tempo de “Tiki-Taka”, mas sim de atacar e avançar em suas tarefas!terça-feira, 8 de abril de 2014
Dona Flor e seus dois maridos (a volta de Vadinho)
A belíssima cena da minissérie "Dona Flor e seus dois maridos" (1997). Atuação impecável de Edson Celulari e Giulia Gam.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
O espectro do "rolezinho"
Iniciados em dezembro, o famoso “rolezinho”
vem se tornando uma ferramenta de mobilização nas grandes capitais do Brasil. O
movimento caracterizado por reunir milhares de jovens da periferia em espaços
como shoppings ou praças, têm sido constantemente debatidos nas mídias oficiais
burguesas e têm causado estranheza até em setores da esquerda.
Porém, diante da complexidade de nossa
sociedade tangenciada, principalmente, por sua constante urbanização, tais
movimentos devem ser debatidos com a devida cautela, sem cairmos na armadilha
de rotularmos binariamente.
O
direito à cidade
É sabido que nas recentes pautas do
capitalismo, há um profundo apego a reprodução do consumismo. A necessidade de realimentar o sistema com a
desvalorização de uso dos produtos e diminuição de sua vida útil provendo a
supervalorização do seu valor de mercado é uma ode ao “ter” da sociedade
contemporânea. A facilidade do crédito proporcionou a um falso estado de
permanência do poder de compra para a classe trabalhadora que inova no
revigoramento do sistema, fomentador das dívidas físicas individuais, sustentáculos
do consumo e de sua dinamicidade.
Alinhado a isso, temos a ampliação de
um projeto urbano que prioriza o desmonte do espaço público e potencializa a construção
dos espaços privados, seja para a construção de condomínios luxuosos para a
classe dominante, grandes estacionamentos ou espaços de interação coletiva direcionados
ao consumo, como o caso dos shoppings centers.
A destruição dos poucos espaços
públicos na periferia e o monopólio cultural diversificado restrito aos bairros
da elite, concluiu num vácuo que engessasse a juventude periférica em seu eco
expressivo, restringindo seus significantes culturais à margem
da cidade, o melhor exemplo é a criminalização do funk. Já alijada do intercâmbio cultural, com a
destruição dos poucos espaços alternativos públicos e privados, essa juventude
localizada em sub-empregos e precarizada, nasceu orientada a
ocupar-se em seu tempo livre nos espaços de consumo, contribuindo na rotação da
engrenagem de um hiato subjetivo e deformador.
O
“rolezinho” é uma reivindicação ao consumismo?
À primeira vista, determinadas
reivindicações de diferentes movimentos causam a devida estranheza, caso nos
apeguemos a leitura marxista vulgar da realidade, ancoradas no sectarismo de
desprezar as contradições que permeiam a complexidade dos debates. Como, por
exemplo, apoiar a união civil estável gay se somos contra a família ou
apoiarmos o movimento por reforma agrária se somos contra a propriedade?
São indagações que desnudas de uma
leitura sofisticada da realidade nos coloca no time da ordem, pois se despreza
o aspecto transitório do programa e suas conclusões contra-hegemonistas de
campo. Por isso, devemos ter o tato necessário ao compreender o recente
movimento do “rolezinho”, organizado via redes sociais, principalmente, nos
shoppings-centers.
Na Turquia, jovens se mobilizaram para
impedir a construção de shoppings nas principais praças de Istambul,
reconhecendo o impeditivo que esses espaços privados colocariam em suas
interações sociais. No caso do Brasil, onde o atrasado e o moderno convivem
harmoniosamente para a manutenção do sistema, nós tivemos a construção dos
shoppings centers em alguns lugares da periferia onde sequer se teve qualquer
espaço público de interação social.
A carência de espaços dessa
determinação revelou uma proliferação desses templos de consumo que se
mostraram insuficientes para uma juventude que anseia expor sua realidade, sua
expressão, não na periferia da cidade, mas sim, nos espaços freqüentados pela
elite que a domina no seu cotidiano. A juventude do “rolezinho” quer freqüentar
as zonas de lazer da cidade onde só lhe é permissiva sua exploração, sua deformação.
Essa juventude, em grande parte negra e pobre, quer coletivamente mostrar que é
maioria na população e que coletivamente não será oprimida pela sua origem ao
transitar nos espaços freqüentados por àqueles que só aparecem no outdoor das
janelas dos precarizados transportes públicos.
Eu
quero dar um “rolezinho”!
A polícia militar mais uma vez
demonstrou que só protege o espaço privado, além da própria corroboração da
justiça, como ficou exemplificado no shopping JK Iguatemi em São Paulo. A
burguesia se amedrontou com a “cobrança” dos jovens de periferia carentes de
espaços que contribuam em sua expressividade cultural. Os que alegavam que as jornadas de junho eram
atos não protagonizados pela classe trabalhadora, devem revirar-se em seus
conceitos, afinal, os precarizados querem lazer e mostrar que não são
invisíveis, como ficou claro no grito da juventude do “rolezinho” no Shopping
Internacional de Guarulhos no final de ano passado: “Chama geral pra se trombar no baile funk”.
Confesso que ir sozinho ao shopping freqüentado
pela classe dominante me deixa constrangido pelos olhares de medo ou na forma
que as madames e os playboys seguram seus pertences, como se eu fosse
roubá-los. Agora ir com minha galera da periferia dar um “rolezinho” me deixa
muito mais animado e seguro!
Não precisamos de PM, só queremos
lazer e o direito á cidade!
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
O Sul da cidade
Irei começar esse texto com
uma afirmação óbvia para os moradores do Grande Rio: o transporte público da
região é extremamente precário. É um tema simples, que já foi desenvolvido na
forma acadêmica, através de gráficos, rabiscos, referências, etc. Ou seja, a
comprovação fria de laboratórios e grupos de estudos em prédios pesados me
contemplaria. Porém, esse não é o meu objetivo ao dissertar quanto a tal
temática, que em sua derivação nos daria teses e teses para programas de
pós-graduação no Brasil afora. A minha questão é simples: é o meu trabalho de
campo, algo feito por um leigo há alguns anos, não para a academia,
logicamente, mas para a minha necessidade.
É importante compreender que
a dinâmica geográfica de uma metrópole, no caso, o Grande Rio, esclarece quanto
às regiões que sustentarão os anseios de uma classe. Para o nosso interesse: a
dominante. A divisão se torna clara quando percebemos o acesso que determinados
setores da sociedade têm a espaços culturais e de lazer. A conjugação de
fatores que promovem a dificuldade de acesso à esses locais privilegiados, só
vêm a reforçar essa clara segregação social. Por mais que sejamos românticos e
busquemos a democratização do conhecimento e o lazer, sabemos que a voracidade
do sistema que estamos inseridos, dificulta a propagação de tais valores, já
que a cristalização de hábitos como o coronelismo, religião, dentre outros,
marginalizam, na maioria das vezes, essas regiões do circuito de acesso a instituições alternativas de cultura, além do popular. Não aprofundarei na
discussão do popular, ciente que essa forma deve ser salientada. Porém,
até que ponto a massificação excessiva, sem o intercâmbio construtivo, alija e
deforma o trabalhador culturalmente?
Finalmente, chegarei ao
ponto principal de minha explanação, que se trata do deslocamento cruel e
desafiador ao proletário que reside em áreas marginalizadas do Grande Rio. O
monopólio das empresas de ônibus, amparadas nas suspeitas concessões, além das
insistentes rodovias privadas, impedem a estruturação de transportes mais
práticos e baratos como os ferroviários. Cabe ressaltar, que além dos preços
exorbitantes das passagens, há ainda os desgastantes engarrafamentos, que são
um acréscimo nas idas e vindas dos trabalhadores pelas sucursais viagens até o
núcleo da metrópole.
O terminal rodoviário Cel.
Américo Fontenelle, na Central do Brasil, é a síntese mais expressiva da
barbárie contemporânea que acomete aos “excluídos da civilização”. A
especulação imobiliária anuncia o progresso com a invasão de lugares clássicos
que compõem o ambiente, enquanto não se desloca às comunidades, e alinha-se com
o caótico e imenso comércio informal. Filas quilométricas anunciam o desespero
de horas e horas dos trabalhadores, trancafiados em caixas de metal, onde se debaterão
à procura de assentos, enquanto imaginam serem contemplados pelo divino, já que
os não considerados, só voltam para a casa na sexta-feira, enquanto se acomodam
em caixas de papelão pela Av. Presidente Vargas. É interessante acompanhar o
itinerário dos ônibus que atravessam o Grande Rio, principalmente na Baixada
Fluminense. Faz-se o diagnóstico de que não há linhas para a Zona Sul do Rio de
Janeiro. Muito se especula a respeito de tal mistério, mas há um aspecto
interessante, é nessa região que se encontra a profícua vida cultural da
cidade, com cinemas alternativos, exposições de arte, teatros e variados
eventos de promoção cultural que elevam a capacidade reflexiva e crítica do
homem. Conforme ponderei, não desprezemos a cultura popular, de massas, mas
saibamos reconhecer até que ponto a sua restrição limita o ser humano.
Alencar essas questões nos
faz compreender até que ponto a estrutura geográfica da cidade deforma
as indagações do homem sob o âmbito cultural. A necessidade da arte se faz
presente, enquanto autoconhecimento e reconhecimento coletivo, fatores
fundamentais no processo de conscientização da classe. Por isso, a busca por
políticas públicas que reconheçam a importância de um sistema de transporte efetivo e permita o acesso direto aos locais restritos de promoção da arte. Fator fundamental para a democratização desta aos trabalhadores residentes na periferia.
Assinar:
Postagens (Atom)



