terça-feira, 8 de abril de 2014

Dona Flor e seus dois maridos (a volta de Vadinho)



A belíssima cena da minissérie "Dona Flor e seus dois maridos" (1997). Atuação impecável de Edson Celulari e Giulia Gam.







segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O espectro do "rolezinho"


Iniciados em dezembro, o famoso “rolezinho” vem se tornando uma ferramenta de mobilização nas grandes capitais do Brasil. O movimento caracterizado por reunir milhares de jovens da periferia em espaços como shoppings ou praças, têm sido constantemente debatidos nas mídias oficiais burguesas e têm causado estranheza até em setores da esquerda.
Porém, diante da complexidade de nossa sociedade tangenciada, principalmente, por sua constante urbanização, tais movimentos devem ser debatidos com a devida cautela, sem cairmos na armadilha de rotularmos binariamente.
O direito à cidade
É sabido que nas recentes pautas do capitalismo, há um profundo apego a reprodução do consumismo. A necessidade de realimentar o sistema com a desvalorização de uso dos produtos e diminuição de sua vida útil provendo a supervalorização do seu valor de mercado é uma ode ao “ter” da sociedade contemporânea. A facilidade do crédito proporcionou a um falso estado de permanência do poder de compra para a classe trabalhadora que inova no revigoramento do sistema, fomentador das dívidas físicas individuais, sustentáculos do consumo e de sua dinamicidade.
Alinhado a isso, temos a ampliação de um projeto urbano que prioriza o desmonte do espaço público e potencializa a construção dos espaços privados, seja para a construção de condomínios luxuosos para a classe dominante, grandes estacionamentos ou espaços de interação coletiva direcionados ao consumo, como o caso dos shoppings centers.
A destruição dos poucos espaços públicos na periferia e o monopólio cultural diversificado restrito aos bairros da elite, concluiu num vácuo que engessasse a juventude periférica em seu eco expressivo, restringindo seus significantes culturais à margem da cidade, o melhor exemplo é a criminalização do funk.  Já alijada do intercâmbio cultural, com a destruição dos poucos espaços alternativos públicos e privados, essa juventude localizada em sub-empregos e precarizada, nasceu orientada a ocupar-se em seu tempo livre nos espaços de consumo, contribuindo na rotação da engrenagem de um hiato subjetivo e deformador.
O “rolezinho” é uma reivindicação ao consumismo?
À primeira vista, determinadas reivindicações de diferentes movimentos causam a devida estranheza, caso nos apeguemos a leitura marxista vulgar da realidade, ancoradas no sectarismo de desprezar as contradições que permeiam a complexidade dos debates. Como, por exemplo, apoiar a união civil estável gay se somos contra a família ou apoiarmos o movimento por reforma agrária se somos contra a propriedade?
São indagações que desnudas de uma leitura sofisticada da realidade nos coloca no time da ordem, pois se despreza o aspecto transitório do programa e suas conclusões contra-hegemonistas de campo. Por isso, devemos ter o tato necessário ao compreender o recente movimento do “rolezinho”, organizado via redes sociais, principalmente, nos shoppings-centers.
Na Turquia, jovens se mobilizaram para impedir a construção de shoppings nas principais praças de Istambul, reconhecendo o impeditivo que esses espaços privados colocariam em suas interações sociais. No caso do Brasil, onde o atrasado e o moderno convivem harmoniosamente para a manutenção do sistema, nós tivemos a construção dos shoppings centers em alguns lugares da periferia onde sequer se teve qualquer espaço público de interação social.
A carência de espaços dessa determinação revelou uma proliferação desses templos de consumo que se mostraram insuficientes para uma juventude que anseia expor sua realidade, sua expressão, não na periferia da cidade, mas sim, nos espaços freqüentados pela elite que a domina no seu cotidiano. A juventude do “rolezinho” quer freqüentar as zonas de lazer da cidade onde só lhe é permissiva sua exploração, sua deformação. Essa juventude, em grande parte negra e pobre, quer coletivamente mostrar que é maioria na população e que coletivamente não será oprimida pela sua origem ao transitar nos espaços freqüentados por àqueles que só aparecem no outdoor das janelas dos precarizados transportes públicos.
Eu quero dar um “rolezinho”!
A polícia militar mais uma vez demonstrou que só protege o espaço privado, além da própria corroboração da justiça, como ficou exemplificado no shopping JK Iguatemi em São Paulo. A burguesia se amedrontou com a “cobrança” dos jovens de periferia carentes de espaços que contribuam em sua expressividade cultural.  Os que alegavam que as jornadas de junho eram atos não protagonizados pela classe trabalhadora, devem revirar-se em seus conceitos, afinal, os precarizados querem lazer e mostrar que não são invisíveis, como ficou claro no grito da juventude do “rolezinho” no Shopping Internacional de Guarulhos no final de ano passado: “Chama geral pra se trombar no baile funk”.
Confesso que ir sozinho ao shopping freqüentado pela classe dominante me deixa constrangido pelos olhares de medo ou na forma que as madames e os playboys seguram seus pertences, como se eu fosse roubá-los. Agora ir com minha galera da periferia dar um “rolezinho” me deixa muito mais animado e seguro!


Não precisamos de PM, só queremos lazer e o direito á cidade! 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O Sul da cidade


Irei começar esse texto com uma afirmação óbvia para os moradores do Grande Rio: o transporte público da região é extremamente precário. É um tema simples, que já foi desenvolvido na forma acadêmica, através de gráficos, rabiscos, referências, etc. Ou seja, a comprovação fria de laboratórios e grupos de estudos em prédios pesados me contemplaria. Porém, esse não é o meu objetivo ao dissertar quanto a tal temática, que em sua derivação nos daria teses e teses para programas de pós-graduação no Brasil afora. A minha questão é simples: é o meu trabalho de campo, algo feito por um leigo há alguns anos, não para a academia, logicamente, mas para a minha necessidade.
É importante compreender que a dinâmica geográfica de uma metrópole, no caso, o Grande Rio, esclarece quanto às regiões que sustentarão os anseios de uma classe. Para o nosso interesse: a dominante. A divisão se torna clara quando percebemos o acesso que determinados setores da sociedade têm a espaços culturais e de lazer. A conjugação de fatores que promovem a dificuldade de acesso à esses locais privilegiados, só vêm a reforçar essa clara segregação social. Por mais que sejamos românticos e busquemos a democratização do conhecimento e o lazer, sabemos que a voracidade do sistema que estamos inseridos, dificulta a propagação de tais valores, já que a cristalização de hábitos como o coronelismo, religião, dentre outros, marginalizam, na maioria das vezes, essas regiões do circuito de acesso a instituições alternativas de cultura, além do popular. Não aprofundarei na discussão do popular, ciente que essa forma deve ser salientada. Porém, até que ponto a massificação excessiva, sem o intercâmbio construtivo, alija e deforma o trabalhador culturalmente?
Finalmente, chegarei ao ponto principal de minha explanação, que se trata do deslocamento cruel e desafiador ao proletário que reside em áreas marginalizadas do Grande Rio. O monopólio das empresas de ônibus, amparadas nas suspeitas concessões, além das insistentes rodovias privadas, impedem a estruturação de transportes mais práticos e baratos como os ferroviários. Cabe ressaltar, que além dos preços exorbitantes das passagens, há ainda os desgastantes engarrafamentos, que são um acréscimo nas idas e vindas dos trabalhadores pelas sucursais viagens até o núcleo da metrópole.
O terminal rodoviário Cel. Américo Fontenelle, na Central do Brasil, é a síntese mais expressiva da barbárie contemporânea que acomete aos “excluídos da civilização”. A especulação imobiliária anuncia o progresso com a invasão de lugares clássicos que compõem o ambiente, enquanto não se desloca às comunidades, e alinha-se com o caótico e imenso comércio informal. Filas quilométricas anunciam o desespero de horas e horas dos trabalhadores, trancafiados em caixas de metal, onde se debaterão à procura de assentos, enquanto imaginam serem contemplados pelo divino, já que os não considerados, só voltam para a casa na sexta-feira, enquanto se acomodam em caixas de papelão pela Av. Presidente Vargas. É interessante acompanhar o itinerário dos ônibus que atravessam o Grande Rio, principalmente na Baixada Fluminense. Faz-se o diagnóstico de que não há linhas para a Zona Sul do Rio de Janeiro. Muito se especula a respeito de tal mistério, mas há um aspecto interessante, é nessa região que se encontra a profícua vida cultural da cidade, com cinemas alternativos, exposições de arte, teatros e variados eventos de promoção cultural que elevam a capacidade reflexiva e crítica do homem. Conforme ponderei, não desprezemos a cultura popular, de massas, mas saibamos reconhecer até que ponto a sua restrição limita o ser humano.
Alencar essas questões nos faz compreender até que ponto a estrutura geográfica da cidade deforma as indagações do homem sob o âmbito cultural. A necessidade da arte se faz presente, enquanto autoconhecimento e reconhecimento coletivo, fatores fundamentais no processo de conscientização da classe. Por isso, a busca por políticas públicas que reconheçam a importância de um sistema de transporte efetivo e permita o acesso direto aos locais restritos de promoção da arte. Fator fundamental para a democratização desta aos trabalhadores residentes na periferia. 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

"Quando bate uma saudade" (Paulinho da Viola) na voz de Pedro Miranda e Teresa Cristina

"Quando um poeta se encontra
Sozinho num canto qualquer do seu mundo
Vibram acordes, surgem imagens
Soam palavras, formam-se frases
Mágoas, tudo passa com o tempo
Lágrimas são as pedras preciosas da ilusão
Quando, surge a luz da criação no pensamento
Ele trata com ternura o sofrimento
E afasta a solidão"



quinta-feira, 12 de julho de 2012

Metamorfose


Era adocicada, pura, límpida, quase pálida
Murmurava, sorria, sentia
Dissertava quanto a coisas bonitas
Sobre o futuro, de uma forma afetiva

Agradável, por que não?
O temor inicial? Diluiu-se
Abracei-a, recebi
Coloquei sobre meu pranto paterno
Divaguei quanto a histórias e sonhos
Expus fragilidades e medos

Imaginei, por um momento, sorrir
Não um sorriso trágico ou infausto
Mas sim, um sorriso do Éden

Porém, do sorriso fez-se o escárnio
Lamúrias e repulsa
Assista você
Você!

Preterize-se  e a assista agora
Não és humana, sequer
Vomitas pedância como quem compôs apego
O que és? O que foi?
Sorria, sim
Pois transparece o sinistro

terça-feira, 10 de julho de 2012

Plácido desgaste


A tragédia é inerente a minha vida. Isso é uma constatação! Concebo-me num misto de romances literários, perpassando por Jorge Amado e seus homens caricatos, pela Gente Pobre de Dostoiévski, até o final funéreo de ordem rodrigueana. Minhas narrativas se conduzem ao vislumbre do óbvio, em sua forma mais crua e deprimente, oriunda do cansaço da maturidade.
Como diria Nelson Rodrigues: “É batata!”. Minhas dúvidas se confirmaram, uma a uma, desde o começo, desde a gênese, quando se quer imaginava o período. Nunca tive profunda exatidão quanto a tempo, embora a matemática me contemplasse em questão de conjunturas. Mesmo assim, não sei por que diabos, ainda lamento algo que já era previsível. Acho que o gosto momentâneo da felicidade desvirtuava, por alguns instantes, o fim, o frio, o evidente. É como se a listagem dos tópicos fossem uma a uma sendo confirmada, tamanha era a complexidade da estruturação literária, de causar inveja ao melhor crítico de revista especializada.
Não questione minha passividade, sei que para o leitor é simples apontar os erros do protagonista, apenas se oriente pelo enredo. Há medos e dúvidas no decorrer do romance, porém no fim só restam certezas. Certeza que felicidade é acompanhada da sobriedade e da solidão. Aventuras, agora, somente em outras esferas, que tal um romance policial ou um suspense ácido, com ações mirabolantes dignas de chamadas de TV.
Não, agora é o fim! Desisto dos romances burgueses principescos, onde tudo se aflui, isso não existe! Por viver e sofrer sozinho, por lutar sozinho, concluo que a vida não se faz de sentimentos nobres ou de intencionalidades, mas sim de humanidade, mesmo que mínima. Subjetivamente sou e serei só, isso é o que me comove. Objetivamente sou e serei coletivo, daí agradeço a ética dos heróis literários, mesmo dos derrotados.

Mais um começo

E, finalmente, depois de 5 anos, encerremos mais um ciclo. Formados de História-UFF, turma "Proletários de Clio" (2/2011). Com muita honra fui o orador dos amigos, que já deixam saudades. Segue o discurso abaixo, amplamente ovacionado pelos presentes:


"Hoje, se inicia um novo ciclo na vida de cada um dos formandos aqui presentes. Muitos seguirão carreira na graduação escolhida, outros optarão por outras atividades, porém o sentimento será o mesmo: a lembrança dos fragmentos que compuseram o tecido poético e cotidiano da convivência, da ocupação dos espaços da universidade, em suas narrações, diálogos, ócio e trabalho intelectual, criador e reprodutor de ferramentas que possibilitam uma atuação maior junto à sociedade.
Nossas responsabilidades aumentam a partir de hoje, pois o acúmulo empregado nesses anos de graduação já nos dão dicas quanto à compreensão dos fatos do dia-a-dia, reflexo de uma construção histórica atreladas a características econômico-sociais, culturais e políticas. Do caos intelectual que grande parte foi induzida a inserção nesse curso superior, hoje, ao final dele, se esboça de forma sistemática a possibilidade da retórica, da ação, da mudança, da indignação, de um profissional que se enxerga além das premissas sistêmicas engessadoras da criatividade e da atuação com ampla possibilidade de construção e reconstrução, afinal estamos em constante aprendizado consigo mesmos e com o mundo.
Hoje é um dia especial para todos, não só por concluir uma desgastante caminhada denunciada por noites em claro, resultado das, ainda, insistentes avaliações, por horas de prisão nos transportes públicos, pelo dispêndio e dificuldades financeiras gastas com turbina intelectual, dentre zilhões de premissas que conjugadas nos incentivavam a prosseguir com mais garra junto ao objetivo final. Os presentes sabem da dificuldade que foi concluir esse curso! Cabe ressaltar que somente 10% dos jovens brasileiros estão no ensino superior, desses, um pouco menos de 3% tiveram o privilégio de frequentar uma universidade pública!
Deliberações comandadas por órgãos internacionais financeiros ditam as política a serem aplicadas na Educação, principalmente, em países periféricos, como é o caso do Brasil. Menos de 3% do PIB é investido em Educação, sendo que o repasse é para o setor privado, também. Tais premissas são fundamentais para exaltarmos o dia de hoje, que além de toda cerimônia contemplando os novos historiadores se destaca por convergir conjunturalmente com um período especial nas universidades públicas brasileiras. Hoje, no Brasil, mais de 50 universidades aderiram à greve que reivindica uma melhor reestruturação de carreira para os professores. Na UFF, ocorre uma greve unificada dos três setores (técnicos, professores e alunos) cientes da impossibilidade de progredir com posturas verticalizadas e opressivas, que sequer consultam os interesses dos reais afetados.
Hoje, é o dia em que convergimos com essa linha. Apesar de divergências ideológicas, no presente quórum, todos têm uma certeza: somos historiadores, portanto, somos inconformados! Inconformados com a injustiça, com a intolerância, com a opressão, com egoísmo, com a repressão, com a falta de amor e lealdade ao próximo! Somos a favor da diversidade, do respeito, da harmonia, do sorriso! Sorriso que ofusca a cansaço e abrilhanta o olhar calejado de cada presente! Sorrisos que serão convenientes a cada recordação, a cada averiguação de relações contemporâneas ao acúmulo da universidade, a cada saudade, a cada dia...
Não, não é o fim! É a apenas o começo de uma nova vida, novas demandas, novos laços e, principalmente, novas perspectivas e despedidas! Como dizia um velho barbudo: “Os filósofos até o momento só fizeram interpretar o mundo, o mais importante não fizeram, que é transformá-lo”. Eis que chegou nossa hora, agora como historiadores habilitados, transformemos nossas vidas com humanidade e revolução!"