Questões pertinentes
Em adaptação ao livro, é lançado no ano de 2015 a animação que dá o mesmo nome a obra. Sob a direção do americano Mark Osborne (Kung Fu Panda e a série de animação Bob Esponja), o longa apresenta em sua narrativa uma mãe compulsiva em busca da sistematização de tarefas para sua filha, ainda criança. O objetivo de inseri-la num renomado colégio, a induz por construir um planejamento de tarefas engessadas, com muitas horas de estudo e a exclusão da prática do “brincar” ou ter acesso a relações sociais, algo que iria “prejudicar o seu futuro”. A vida da menina muda após estabelecer contato com o seu vizinho, um idoso malquisto pelos moradores do bairro classe média onde morava. O vizinho em questão é o protagonista da obra literária, que narra o encontro com o Pequeno Príncipe, história apresentada paralelamente no estilo stop-motion, o que enriquece plasticamente ainda mais o longa.
Detalhe para o empresário, representado na figura de um sujeito ambicioso acompanhado de seus sócios, incomodados com objetos que incitem a criação, a arte com seu papel libertador. Metaforicamente, a diluição destes objetos por este grupo é sua transformação em clipes de escritório, aspecto interessante que mais uma vez permeia a burocratização do modo de vida da humanidade. Porém, a parte mais chocante é a ânsia pela acumulação de bens do empresário que se apropria de todas as estrelas do céu. Há ainda adereços interessantes no filme, como o guarda que ao prender a menina – naquele contexto onde ser criança era considerado um crime - é aplaudido pela população, o que nos remete aos nossos tempos de espetacularização da barbárie.
A solidariedade de classe
A animação foge ao enredo do livro, que se limita a debater as relações sociais numa ótica genérica, e aprofunda a crítica da construção dessas relações em debate com nosso “mundo adulto” contemporâneo, do modo de produção de capitalista. Ao abordar uma discussão ético-política sobre essas relações, há o reconhecimento evidente da frase do escritor da obra que conduz o filme, onde ele afirma que “só se vêm bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”. Afirmação que emerge a necessidade de transformação da nossa sociedade, determinada no atual contexto a ampliar o individualismo e sua fragmentação, hoje refletida no corroer de caráter, assim como o abandono de sentimento de solidariedade e humanidade.
Diante disso, nos cabe uma reflexão, que um mundo novo é possível a partir do momento em nosso horizonte que estejamos propensos a construção de bons adultos, aqueles que não se distanciaram da responsabilidade de cuidar daquilo que cativam, ou seja, de relações sociais que transbordem a afetividade e tomem a solidariedade de classe.
Nenhum comentário:
Postar um comentário